Entre uma entrega e outra, enfrentando o trânsito intenso, longas jornadas e a pressão constante do tempo, centenas de motoentregadores pararam a rotina nesta terça-feira (13) para cuidar da própria saúde. A Praça Ary Coelho, no Centro de Campo Grande, se transformou em ponto de acolhimento e atendimento para trabalhadores que, diariamente, percorrem a cidade sobre duas rodas.

A ação inédita “Saúde na Pista” reuniu motoentregadores em uma programação voltada especialmente à categoria, com serviços gratuitos como teste de glicemia, exames preventivos, orientações de trânsito, ações educativas e palestra sobre saúde mental. A iniciativa buscou aproximar os serviços de saúde de profissionais que, muitas vezes, adiam o autocuidado devido à correria da rotina.

Promovido pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), o evento contou com a parceria de órgãos públicos, aplicativos de entrega, associações, sindicatos, conselhos de classe, entidades de saúde, Detran/MS, Cruz Vermelha e Águas Guariroba. A mobilização destacou a importância da prevenção e da assistência a uma categoria considerada uma das mais vulneráveis aos acidentes e ao desgaste físico e emocional no trânsito urbano.

A abertura contou com apresentação da Banda de Música da Guarda Civil Metropolitana e, ao longo da manhã, os trabalhadores tiveram acesso a testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites, aferição de pressão arterial, exame computadorizado de visão, teste de acuidade visual, massagem, corte de cabelo e barba, além de doação de armações de óculos, palestra sobre a importância de desacelerar, entre outros serviços.

Mateus Gonzalez, 27 anos, contou que foi convidado pela Vigilância Sanitária da Sesau, que entrou em contato com a equipe Fúria das Ruas, composta por mais de 700 motoentregadores. Ele trabalhava como vendedor e a atual profissão surgiu há cerca de quatro anos, como renda extra.
“A nossa categoria vem crescendo muito no Brasil, move a logística do país com a entrega de medicamentos e alimentos, por exemplo. Acredito que esse movimento tem que ser bastante divulgado e já é um início. Achei muito importante essa iniciativa”, contou Mateus.

A Coordenadora da Vigilância Sanitária da Sesau, Renata Sanches, destacou que a ação nasceu da necessidade de olhar para um público que vive sob pressão. “É aquele trabalhador que está muito preso ao horário, que precisa correr para entregar rápido. E, muitas vezes, nós mesmos, enquanto consumidores, aumentamos essa pressão com a cobrança por agilidade. Então, precisamos conscientizá-los da importância de cuidar da própria saúde”, afirmou.

Renata destacou que os acidentes envolvendo motociclistas representam uma das principais ocorrências relacionadas ao trabalho, por isso foi importante unificar a campanha nacional de conscientização sobre a importância da segurança e saúde no trabalho, com o movimento internacional para reduzir acidentes e mortes no trânsito. “Ele está no trânsito, mas também é um trabalhador. Por isso, essa união entre o Abril Verde e o Maio Amarelo”, explicou.
Cadastro
Além dos atendimentos, o evento também teve como foco o cadastramento dos profissionais de motoentrega para futuras ações de saúde e prevenção. “Nosso objetivo principal é saber quem são esses trabalhadores, quantos são e onde estão, para conseguirmos chegar até eles com novas ações”, explicou Renata.
Maicon Centurião, de 26 anos, concorda com os riscos dessa profissão. “Eu estava trabalhando registrado, daí fui mandado embora. Ao invés de tentar outro emprego, resolvi me arriscar nesta loucura de ser motoentregador e acabou dando certo, na verdade. Já estou neste ramo há uns quatro ou cinco anos”, contou.

O stress do dia a dia já faz parte da sua rotina. “Não temos tempo para cuidar da saúde, essa vida de entregador é muita loucura, é chuva, sol, trânsito…Você sai cinco horas da manhã e chega 22 horas. Não tenho tempo para quase nada, só descanso e volto a trabalhar. É uma ação muito importante pra gente, dá pra ver que eles estão preocupados. Vou aproveitar e ver como está a minha saúde”.

Dentre as atividades mais procuradas, a experiência prática que simulava os efeitos do álcool na condução de motocicletas, além da demonstração sobre ponto cego de carretas, foram os destaques. “Convidamos 800 motociclistas do MS Delivery, 600 do Ifood. É importante essa conscientização para reduzirmos os acidentes e salvar vidas”, disse a diretora de Educação para o Trânsito do Detran, Andrea Morango.
Laércio Aparecido Vanzela, de 57 anos, contou que está há mais de 10 anos no ramo da entrega particular de retifica de motor de veículos. “Era construtor, sofri acidente e até fiquei manco de uma perna. Daí eu tive que procurar uma profissão mais leve, para pegar menos peso e estou até hoje. Eu vi no jornal, achei interessante e trouxe até minha esposa. Ela veio me acompanhar e agora vamos aproveitar”, revelou.

O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, agradeceu ao público presente pela adesão à iniciativa proposta. Ele reforçou o compromisso da administração municipal de ampliar ações voltadas ao setor.

“Vamos lutar por um trânsito mais seguro, trabalhando com os motociclistas em uma saúde preventiva em relação aos acidentes e a vários aspectos da saúde. É assim que construímos uma sociedade melhor e mais participativa”, declarou o titular da Sesau.
Para ele, a expectativa é que o “Saúde na Pista” seja o primeiro de muitos eventos voltados aos profissionais que movimentam a cidade sobre duas rodas.



