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terça-feira, abril 28, 2026
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COLUNA ENTRE LINHAS & SILÊNCIOS: JOÃO GRILO E O APOCALIPSE DO PIX

João Grilo acordaria hoje às cinco e meia da manhã não porque quisesse, mas porque o algoritmo do despertador do celular — que ele ganhou usado do primo — decidiu que aquela era a “hora ideal para produtividade”. Ele olharia para a tela rachada, suspiraria fundo e pensaria: “No meu tempo, a gente acordava com galo. Agora é com notificação.”

Chicó continuaria sendo Chicó. Mas agora seria Chicó com Instagram. Toda manhã postaria uma foto do céu com a legenda: “Gratidão por mais um dia.” E João Grilo, vendo aquilo, comentaria: “Gratidão é o que você vai ter que ter quando o aluguel vencer, Chicó.”

Porque o mundo mudou, mas João Grilo não. Ele continuaria pobre, esperto e desesperado. Só que agora, em vez de enganar o padeiro e a mulher do padeiro para conseguir um pedaço de bênção, ele estaria tentando hackear o sistema do Bolsa Família, dando um jeito de cadastrar a cachorra Baleia como dependente. “Ela come, não come? Então é dependente.”

A primeira coisa que João Grilo faria ao chegar no centro da cidade seria tentar vender alguma coisa. Não porque tem talento para vendas. Mas porque ou vende ou morre — e morrer, ele já fez uma vez, não recomenda.

Ele montaria uma banquinha na calçada. Não de bispo benzido, que isso já saturou. Venderia “curso online de como sobreviver sendo pobre”. Três módulos:

Como parcelar miojo no cartão.
Como transformar conta de luz atrasada em “oportunidade de introspecção à luz de velas”.
Como convencer o gerente do banco de que você vai pagar, só precisa de mais um mês. Ou dois. Ou seis.

Chicó seria o cinegrafista. Gravaria tudo no celular, na vertical, com o dedo tampando metade da câmera. João Grilo reclamaria: “Chicó, pelo amor de Deus, tira o dedo da frente!” E Chicó responderia: “Mas João, eu tô segurando com as duas mãos!” E João Grilo: “Então com que mão tu tá gravando, desgraçado?”

No tempo de Suassuna, João Grilo enganava o padre, o bispo, o diabo. Hoje, ele tentaria enganar o algoritmo. Cadastraria dez perfis falsos no aplicativo de delivery para ganhar cupom de primeira compra. Pediria marmita, cancelaria no último minuto, pegaria o reembolso e compraria outra coisa mais barata. Quando o entregador reclamasse, ele diria: “Rapaz, foi o aplicativo que cancelou sozinho. Eu tava aqui esperando, com a fome e a dignidade.”

Ele criaria um canal no YouTube chamado “João Grilo Sincerão”. O primeiro vídeo seria: “Por que eu não tenho vergonha de ser pobre — e você também não deveria ter.” Faria sucesso. Ganharia 50 mil inscritos. Seria cancelado na semana seguinte porque alguém descobriria que ele usou inteligência artificial para escrever a thumbnail. Ele responderia: “Gente, eu mal sei escrever direito, quanto mais usar inteligência artificial. Isso aí foi o Chicó.”

A mulher do padeiro, que no tempo de Suassuna era a vilã interesseira, hoje seria coach de relacionamento no Instagram. Postaria reels com a legenda: “Escolha um homem que te valorize, não um que te use.” E João Grilo, vendo aquilo, comentaria: “Mas tu não usava o padeiro pra comprar tudo e ainda traía o homem? Agora virou coach?”

Ela bloquearia ele na hora.

O padeiro, coitado, continuaria sendo trouxa. Mas agora seria trouxa com cartão de crédito. Compraria presente caro para a mulher, parcelado em 18 vezes. Ela agradeceria no stories: “Meu amor me deu esse presente maravilhoso.” Não marcaria ele. Marcaria a loja.
Severino de Aracaju, o cangaceiro, hoje seria miliciano. Ou seguidor de página de “frases de respeito e humildade”. Postaria foto de arma com a legenda: “Deus é fiel.” João Grilo veria aquilo e pensaria: “Esse aí continua perigoso. Só que agora tem rede social.”

E o diabo? Ah, o diabo hoje seria CEO de startup. Usaria moletom, falaria de “disrupção” e “mindset”. Tentaria comprar a alma de João Grilo oferecendo “equity” em uma empresa que ainda não existe. João Grilo olharia para ele e diria: “Rapaz, eu já vendi minha alma três vezes essa semana. Uma pro banco, outra pro patrão, outra pro algoritmo do TikTok. Você vai ter que entrar na fila.”

No final, João Grilo continuaria sendo João Grilo. Pobre, esperto, cansado. Mas vivo. Porque ele sempre foi bom nisso: não em vencer. Em não morrer.

Ele olharia para o celular, veria que tem 47 centavos na conta digital, suspiraria e diria para Chicó:

— Chicó, tu acha que as coisas melhoraram desde o nosso tempo?

E Chicó, olhando para o próprio celular sem sinal, responderia:

— Sei não, João. Mas agora a gente morre de fome com internet.

E João Grilo riria. Porque se não rir, chora. E chorar não paga não enche barriga!

Autor: João Roberto Giacomini, advogado e escritor

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