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quinta-feira, setembro 10, 2026
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COLUNA ENTRE LINHAS & SILÊNCIOS: O AMOR TAMBÉM MUDA DE CARDÁPIO

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No começo de um relacionamento, duas pessoas são capazes de cometer atos de generosidade que, examinados anos depois, chegam a parecer juridicamente suspeitos. Um entrega ao outro o melhor pedaço, pergunta onde ele gostaria de morar, aceita a cor da parede que jamais escolheria sozinho, aprende a gostar de uma música que antes considerava crime ambiental e, diante de um quindim, chega à extraordinária conclusão de que metade é suficiente.

É bonito.

Talvez seja por isso que ninguém devesse tomar decisões importantes durante os primeiros meses de paixão. O apaixonado não está propriamente incapacitado para os atos da vida civil, mas certamente deveria comparecer acompanhado de duas testemunhas.

Porque, no início, tudo é “nosso”.

Nossa casa.

Nossa viagem.

Nosso sofá.

Nosso futuro.

Nosso cachorro.

Nossos planos.

Até a dívida, quando aparece, recebe tratamento carinhosamente comunitário.

E não há necessariamente falsidade nisso. Ao contrário. Naquele momento, existe uma disposição genuína para construir. Amar também é essa pequena engenharia cotidiana de ceder alguns centímetros para que o outro consiga caber dentro dos nossos desejos. Às vezes escolhemos o restaurante preferido dele. Às vezes compramos aquilo de que ela gosta. Mudamos horários, adiamos vontades, atravessamos a cidade, carregamos sacolas, esperamos em consultórios e aprendemos que determinadas almofadas, embora absolutamente inúteis, possuem importância estratégica para a felicidade doméstica.

Sonhos se constroem assim.

E sonhos, algumas vezes, realmente se realizam.

O problema talvez não esteja na realização dos sonhos.

Está nos novos sonhos que aparecem depois.

Em algum ponto quase imperceptível da caminhada, o pronome começa a mudar.

O “nós” vai perdendo espaço para o “eu”.

Primeiro discretamente.

“Eu estava pensando em trocar de carro.”

Depois:

“Eu gostaria de fazer uma viagem.”

Mais adiante:

“Eu decidi.”

Quando se percebe, aquele antigo Ministério do Planejamento Familiar foi extinto por decreto unilateral e cada um já administra sua própria república.

Continuam morando no mesmo endereço, naturalmente.

É mais econômico.

Eis uma das grandes ironias contemporâneas: há casais que se separaram sentimentalmente muito antes de conseguirem separar a conta de energia elétrica.

A geladeira permanece conjunta. O coração, privatizado.

Um compra aquilo de que gosta. O outro começa a fazer planos que não incluem ninguém. As conversas diminuem. As explicações aumentam. E surge um fenômeno curioso: duas pessoas que antigamente conversavam durante horas passam a utilizar sofisticadíssimos mecanismos de comunicação.

“Tem café?”

“Tem.”

“Vai sair?”

“Vou.”

“Demora?”

“Não sei.”

Shakespeare precisou de cinco atos para construir suas tragédias. Certos relacionamentos modernos resolvem tudo em quatro palavras e um emoji.

Mas a verdadeira separação talvez aconteça antes da porta bater.

Acontece quando deixamos de perguntar ao outro:

— O que você acha?

Essa pequena pergunta, aparentemente banal, talvez seja uma das mais importantes declarações de amor existentes. Porque perguntar o que o outro acha significa reconhecer que ele ainda participa daquilo que estamos imaginando para nossa própria vida.

Quando essa pergunta desaparece, alguma coisa já começou a morar sozinha.

E então aparecem os julgamentos.

Cada um constrói silenciosamente seu processo.

Acusação, defesa, testemunhas imaginárias, perícias retrospectivas e toneladas de documentos emocionais cuidadosamente arquivados.

“Naquele Natal de 2018 você…”

Pronto.

Quando uma discussão conjugal começa a consultar o arquivo morto, dificilmente terminará apenas discutindo quem esqueceu a toalha molhada sobre a cama.

E há ainda uma crueldade maior.

Nem toda separação exige mudança de endereço.

Existem pessoas vivendo há anos sob o mesmo teto, dormindo talvez na mesma cama, tomando café na mesma cozinha e absolutamente separadas.

São dois solteiros com casamento em vigor.

Dividem o Wi-Fi, o IPTU e eventualmente o controle remoto.

Só não dividem mais o futuro.

Talvez seja aí que comece o sofrimento verdadeiro: não quando alguém vai embora, mas quando permanece sem estar.

Porque uma casa suporta muita coisa. Suporta silêncio, louça acumulada, prestação atrasada, infiltração, parentes em visita e até reforma de cozinha.

O que uma casa dificilmente suporta por muito tempo é a ausência de um “nós”.

Olhei hoje para um quindim bonito, inteiro, brilhante, desses que parecem ter sido inventados para provocar o pecado da gula. Perto dele, uma cascata de chocolate corria generosamente, como se naquele pequeno território ainda houvesse fartura suficiente para todos.

E pensei nos relacionamentos.

No começo, oferecemos:

— Experimenta o meu.

Depois perguntamos:

— Você vai querer?

Mais tarde avisamos:

— Eu pedi só para mim.

Talvez o amor não termine nas grandes tragédias que imaginamos.

Talvez ele vá embora nessas pequenas mudanças de pronome, de planos, de desejos e até de sobremesas.

Até que chega o dia em que duas pessoas olham para a mesma mesa e descobrem que continuam sentadas juntas, mas já estão escolhendo em cardápios diferentes.

E ninguém sabe exatamente quando aconteceu.

Só o garçom percebeu primeiro.

Autor: João Roberto Giacomini, advogado e escritor

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