Antes mesmo de sonhar com grandes estádios, muitos meninos e meninas aprendem que a bola também pode ser um caminho para preservar a identidade, fortalecer a comunidade e construir novos sonhos. Em Mato Grosso do Sul, onde os povos originários têm forte presença histórica e cultural, o futebol ultrapassa as quatro linhas e se transforma em instrumento de inclusão, pertencimento e oportunidade.
Celebrado em 9 de agosto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) para ampliar a conscientização sobre os direitos dos povos originários e valorizar sua diversidade cultural. No futebol sul-mato-grossense, essa representatividade também ganha espaço por meio de clubes que carregam nos escudos, uniformes e atletas a história e o orgulho de suas comunidades.
Das aldeias ao futebol federado
Ter um clube filiado à Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) significa mais do que participar de competições oficiais. Para as comunidades indígenas, representa ocupar novos espaços, ampliar oportunidades para crianças e jovens e mostrar que tradição, identidade e esporte podem caminhar juntos.
Em Dois Irmãos do Buriti e Nioaque, duas experiências ajudam a contar essa história: a Sociedade Esportiva Indígena Terena (Seinter) e o Clube Esportivo Aldeia Brejão (CEAB). Com trajetórias distintas, os clubes têm em comum projetos que nasceram dentro das próprias comunidades e encontraram no futebol federado uma possibilidade de crescimento.
Seinter: pioneirismo e representatividade
Em Dois Irmãos do Buriti, a Seinter (Sociedade Esportiva Indígena Terena)) tornou-se um dos símbolos desse movimento. O clube reúne atletas indígenas e não indígenas e utiliza o futebol como ferramenta de formação esportiva e cidadã.
Para o presidente da Seinter, Eber Reginaldo, a entrada no futebol federado marcou um momento histórico para a comunidade. “Era a representação indígena chegando oficialmente a um espaço que, durante muitos anos, parecia muito distante da realidade das nossas aldeias. Começamos essa trajetória com aproximadamente 40 atletas indígenas e não indígenas. Isso mostra para uma criança que está jogando bola dentro da aldeia que ela também pode sonhar, vestir uma camisa, disputar uma competição oficial e representar sua comunidade”, afirma.
O dirigente ressalta que a formação esportiva é apenas uma parte do trabalho desenvolvido pelo clube. “Queremos formar atletas, mas, principalmente, formar cidadãos. Queremos que nossos jovens estudem, respeitem suas famílias e lideranças, valorizem sua cultura e tenham orgulho da sua identidade. A filiação à Federação representa reconhecimento, oportunidade e representatividade. É a demonstração de que o indígena pode estar dentro do futebol organizado sem deixar de ser quem é”, completa Eber.
Para ele, a experiência construída em Dois Irmãos do Buriti também pode incentivar outras comunidades a criarem seus próprios projetos.
“Não precisamos abandonar nossa identidade para ocupar novos espaços. Pelo contrário, podemos entrar nesses espaços levando nossa história, nossa cultura e nossos valores. Não queremos ser os únicos. Queremos abrir caminhos para que surjam muitos outros projetos e entidades indígenas no esporte”, afirma.
Entre os próximos objetivos estão o fortalecimento das categorias de base, do futebol feminino e de outras modalidades, além da consolidação de um centro de formação de atletas.
Da Aldeia Brejão para o Brasil
Em Nioaque, o Clube Esportivo Aldeia Brejão construiu uma trajetória que começou no campo da própria comunidade e chegou a uma conquista nacional. O CEAB nasceu na Aldeia Brejão e iniciou, em 2007, um trabalho estruturado de formação de crianças e adolescentes, liderado pelo professor Rona Ilson. Aos poucos, os treinos deixaram de ser apenas partidas de futebol e passaram a trabalhar fundamentos, técnica e formação dos jovens.
“Começamos juntando os garotos e treinando no campo da própria comunidade. Não era apenas jogar futebol, mas trabalhar tática e fundamentos com as crianças. Aos poucos fomos construindo uma base sólida e começamos a disputar competições regionais”, conta o presidente do CEAB, Wesley Góis.
O projeto cresceu, atravessou os limites do município e ganhou projeção com a participação no futebol indígena nacional. Depois de superar as etapas regional e do Centro-Oeste, o CEAB chegou à fase nacional, em Brasília, e conquistou o título do Campeonato Brasileiro de Futebol Indígena.
A conquista ampliou a visibilidade do clube e fortaleceu um sonho que a comunidade carregava havia anos: chegar ao futebol federado.
“A gente tinha esse desejo, mas não tinha o acesso que temos hoje. O presidente Estevão Petrallás foi até a nossa comunidade, conheceu nossa realidade e abriu as portas para esse diálogo. Hoje estamos filiados à Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul”, destaca Wesley.
Talento, cultura e pertencimento
Para o presidente do CEAB, a filiação cria uma ponte entre os talentos existentes nas aldeias e as competições oficiais. “O que essa filiação representa para nós é a possibilidade de mostrar o futebol indígena não apenas para Mato Grosso do Sul, mas para o Brasil. Temos muitos talentos dentro das comunidades e agora podemos representar nossos povos nas competições estaduais e, futuramente, também nacionais”, afirma.
A possibilidade de o jovem defender um clube nascido dentro da própria comunidade tem ainda um significado especial.
“Queremos que nossos garotos possam jogar futebol representando um time indígena, sem precisar sair para outra equipe para ter oportunidade. Eles podem representar nossas comunidades e nossa cultura por meio do esporte. Podemos levar nossa identidade, nossos trajes, o cocar e a pintura para esse ambiente. Isso nos deixa muito felizes e realizados”, explica Wesley.
O dirigente defende ainda que outras comunidades invistam na prática esportiva, mesmo sabendo que nem todos os jovens seguirão carreira como atletas. “A gente sabe que nem todos serão jogadores profissionais, mas o esporte também ajuda a formar cidadãos. A mensagem que deixo às comunidades é que incentivem seus jovens a praticar esporte e que os gestores abracem esses projetos. Dentro das nossas aldeias existem muitos talentos esperando uma oportunidade”, reforça.
FFMS amplia caminhos para o futebol indígena
A presença de clubes indígenas no futebol federado amplia a diversidade e a representatividade do esporte sul-mato-grossense. Ao integrar essas equipes à estrutura oficial, a FFMS aproxima comunidades do calendário estadual, incentiva projetos de formação e cria caminhos para que novos talentos possam ser identificados e desenvolvidos.
Para o presidente da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul, Estevão Petrallás, o movimento representa mais do que ampliar o número de clubes vinculados à entidade.
“Quando um clube indígena se filia à Federação, não estamos apenas aumentando o número de participantes. Estamos ampliando oportunidades, valorizando comunidades tradicionais e fortalecendo o futebol como instrumento de transformação social”, afirma Petrallás.
A aproximação da Federação com os clubes também permite conhecer de perto projetos construídos durante anos dentro das comunidades e entender suas particularidades.
“Nosso futebol precisa chegar a todas as regiões e comunidades de Mato Grosso do Sul. Existem talentos, projetos e pessoas trabalhando pelo esporte dentro das aldeias. O papel da Federação é criar pontes para que essas iniciativas possam se desenvolver e encontrar espaço no futebol organizado”, acrescenta o presidente da FFMS.
Um legado que começa na infância
É geralmente em um campo de terra que tudo começa. Entre uma aula e outra, nas brincadeiras que aos poucos se transformam em treinos, surgem sonhos que agora encontram um caminho mais próximo do futebol organizado. Para muitas crianças das aldeias, vestir a camisa do clube da própria comunidade representa mais do que disputar uma partida: significa carregar uma história.
Eber Reginaldo resume esse propósito ao falar sobre o futuro que deseja para a Seinter e para outras iniciativas indígenas. “Cada criança indígena que encontra uma oportunidade por meio do esporte representa uma possibilidade de transformação para uma família e para uma comunidade inteira. O esporte pode revelar atletas, mas seu maior resultado é ajudar a formar cidadãos, fortalecer nossa identidade e mostrar às novas gerações que elas também têm o direito de sonhar.”
No Dia Internacional dos Povos Indígenas, as trajetórias da Seinter e do CEAB mostram que preservar a cultura também passa por ampliar oportunidades e permitir que os povos originários sejam protagonistas dos espaços que ocupam. Das aldeias ao futebol federado, a bola cria novas possibilidades sem apagar as raízes. Em Mato Grosso do Sul, tradição, identidade e esporte entram em campo juntos.


