Rogério Alexandre Zanetti (*)
Vivemos entre o desejo de conquistar o mundo e a certeza de que um dia teremos de deixá-lo e, assim, seguimos procurando um rumo. O poeta português (álias, o meu favorito) Fernando Pessoa nos oferece um ponto de partida para pensar essa travessia.
Pensei muito nisso, no trânsito parado com a chuva na tarde da última quarta-feira, ali na avenida Afonso Pena. Do simples nada, me veio o verso “navegar é preciso; viver não é preciso.” Aqui, Pessoa atravessou o tempo porque encontra em mim alguma coisa que permanece sem resposta. No texto do poeta, o necessário é criar, dar à existência uma dimensão que ultrapasse a simples conservação da própria vida. Suas palavras, entretanto, também nos convidam a outra leitura, na qual a distância entre a precisão de uma rota e a imprevisibilidade de quem a percorre.
Navegar exige referências. Há instrumentos, coordenadas, cálculos, conhecimento dos ventos. Mesmo sujeito às tempestades, o navegante pode localizar o barco e estimar a distância até o porto. Isso fica ainda mais simples de entender, no mesmo trânsito da Afonso Pena, quando ajusto o GPS com minha rota desejada e ele calcula até o tempo que levarei a percorrer, já descontando o trânsito pesado.
Mas, na vida, fazemos planos com semelhante empenho, mas sem os mesmos recursos. Podemos saber onde estamos e, ainda assim, desconhecer o que nos acontece por dentro. Podemos chegar ao lugar desejado e descobrir que já não desejamos permanecer ali, e não haverá – felizmente! – uma voz a nos dizer, “você chegou ao seu destino”.
É essa imprecisão que nos acompanha desde cedo. Escolhemos uma profissão antes de conhecer todas as nossas capacidades. Amamos e juramos amor eterno a alguém sem saber como seremos daqui a vinte anos. Construímos uma casa, uma família, uma história, enquanto o tempo modifica silenciosamente quem participa dela. Decidimos com o que sabemos hoje e convivemos, amanhã, com as consequências do que ainda não podíamos saber. Viver exige escolhas para as quais quase nunca estamos inteiramente preparados.
O horizonte muda de lugar
Há em nós uma inquietação que nenhuma conquista parece encerrar definitivamente. Durante anos, acreditei que a tranquilidade viria com “aquele” emprego, com a estabilidade financeira, com o reconhecimento ou com aquele projeto enfim realizado. Somos todos assim, e quando chegamos, sentimos alegria, às vezes alívio. Depois, quase sem perceber, começamos a olhar adiante. Aliás, outro poeta já dises em Ouro de Tolo já dizia que “eu tenho tantas coisas grandes pra conquistar, e não posso ficar ai parado”. Raul Seixas, assim como Fernando Pessoa, sabia mesmo das coisas.
O horizonte mudou de lugar
Essa disposição nos levou a humanidade a atravessar oceanos, construir cidades, desenvolver conhecimentos e produzir obras que sobrevivem aos seus autores. Também aparece nos pequenos e singelos gestos discretos de quem volta a estudar, aprende um instrumento aos sessenta anos ou encontra coragem para reconstruir a vida depois de uma perda. A inquietude pode ser uma força generosa porque lembra que ainda há possibilidades onde a rotina parecia ter encerrado o assunto.
Mas ela também cobra seu preço. Quando tudo se transforma em preparação para a próxima etapa, o presente perde consistência. O descanso provoca culpa. Uma tarde sem compromissos parece desperdício. Até a felicidade ganha uma condição, a de que seremos felizes quando alguma coisa acontecer.
Passamos, então, a viver à espera
Há pessoas que conquistam quase tudo o que desejam e continuam com a sensação de estar em dívida consigo mesmas. Talvez porque tenham aprendido a medir a existência apenas pelo que tem e falta. Cada realização deixa de ser experiência e se torna um degrau, algo sobre o qual se pisa depressa para alcançar o próximo.
Nesse movimento, podemos perder justamente aquilo que pretendíamos conquistar, a possibilidade de habitar a própria vida.
O futuro que julgamos possuir
Falamos do amanhã com uma intimidade curiosa. Dizemos que faremos uma viagem, procuraremos um amigo, aprenderemos uma língua ou mexer na IA, pediremos desculpas, passaremos mais tempo com os filhos. Distribuímos promessas por anos que ainda não chegaram, como se estivessem guardados em algum lugar, à nossa disposição.
Precisamos dessa confiança para continuar. Seria difícil plantar uma árvore, educar uma criança ou iniciar um livro sem acreditar na continuidade dos dias. O problema começa quando a confiança se transforma em certeza absoluta (absurda?) e o adiamento vira hábito.
A finitude rompe esse acordo silencioso. A morte de alguém próximo, uma doença ou a percepção do envelhecimento frente ao espelho e longe dos filtros das redes sociais fazem o tempo adquirir outro peso. Aquilo que parecia distante se aproxima. A conversa tantas vezes adiada passa a carregar uma urgência dolorosa.
Nessas horas, nem sempre lamentamos as grandes ambições que ficaram pelo caminho. Às vezes, o que pesa é uma ausência pequena e repetida do café combinado com alguém querido ou dos almoços aos quais não fomos, as perguntas que não fizemos, a visita deixada para depois. Descobrimos que certos encontros dependiam de duas vidas disponíveis, e uma delas já não está conosco.
Talvez seja essa uma das maiores dificuldades de aceitar a morte. Compreendemos que ela existe, mas resistimos à ideia de que possa interromper uma história ainda cheia de planos e intenções. Há sempre alguma coisa por fazer. Um lugar por conhecer. Uma explicação por oferecer. Um amor que gostaríamos de viver melhor.
Aprender a conviver com o limite
Nenhuma reflexão elimina inteiramente o desconforto diante do fim. As crenças oferecem respostas, a filosofia amplia as perguntas, a arte encontra formas de expressão para o que mal conseguimos dizer. Ainda assim, permanece o vínculo com a experiência concreta de estar aqui, em reconhecer uma voz, sentir o cheiro da chuva, acompanhar o crescimento de alguém.
Amamos a vida também nesses detalhes. É compreensível que nos custe imaginar sua ausência.
Conviver com a finitude talvez comece pela aceitação dessa dificuldade. Não precisamos transformar a morte em uma ideia confortável, nem fazer de cada dia uma corrida desenfreada para aproveitar todas as oportunidades. Essa exigência seria outra forma de ansiedade. Ninguém consegue viver continuamente sob a obrigação de produzir momentos inesquecíveis.
Podemos, porém, rever a maneira como distribuímos nossa atenção. Perceber quanto tempo entregamos a disputas que pouco significam, são muito bate-boca por nada. Reconhecer os vínculos que merecem cuidado. Admitir que alguns projetos já não nos representam e que abandoná-los pode abrir espaço para desejos mais honestos.
O limite também nos obriga a escolher. Não conheceremos todos os lugares, não exerceremos todas as profissões, não seremos todas as pessoas que imaginamos. Toda vida, por mais longa, deixa possibilidades de fora. Há uma tristeza nisso, mas também a oportunidade de dar profundidade ao que escolhemos viver.
Continuar, mesmo sem garantias
Voltamos, assim, à inquietação de Fernando Pessoa e à necessidade de navegar com precisão e vivendo sem. Podemos reconhecer essa força no poema, na música, no trabalho, mas também no cuidado cotidiano. Criamos condições para que alguém cresça, encontre amparo ou enxergue uma possibilidade. Participamos de histórias cujo desfecho talvez nunca cheguemos a conhecer.
Isso não resolve o mistério do fim. Dá, contudo, uma dimensão concreta ao tempo que temos. Seguimos caminhando porque ainda desejamos. Porque uma ideia nos visita, uma paisagem nos chama, uma pessoa nos importa. Caminhamos também depois dos fracassos, embora com passos diferentes e, às vezes, com menos pressa. A experiência não nos entrega um mapa definitivo; pode nos ensinar a prestar mais atenção ao percurso.
Navegar continuará exigindo rumo. Viver continuará desafiando nossas previsões. Entre uma coisa e outra, teremos de decidir o que fazer com esta manhã, com a conversa que nos espera, com o projeto ainda possível.
Talvez amanhã mudemos de direção. Hoje, porém, há vida acontecendo enquanto consultamos o GPS.
(*) Rogério Alexandre Zanetti é jornalista e publicitário



















