Como a formação profissional pode abrir portas a pessoas com deficiência no cooperativismo

Léo Santos

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Mara Riveiros

Experiência desenvolvida pela Copasul, em parceria com o Sistema OCB/MS, promoveu a formação de uma turma exclusiva de jovens aprendizes com deficiência. A iniciativa ampliou as oportunidades de inclusão profissional, com resultados para os participantes, suas famílias e a cooperativa.

Transformar a formação profissional em oportunidade de inclusão e desenvolvimento. Foi com esse propósito que a cooperativa Copasul, em Naviraí, desenvolveu, em parceria com o Sistema OCB/MS, uma experiência de formação exclusiva para jovens aprendizes com deficiência.

A iniciativa aproximou os participantes do ambiente de trabalho, possibilitou novas oportunidades profissionais e mobilizou diferentes setores da cooperativa em torno de um objetivo comum: construir um espaço cada vez mais inclusivo.

Com 47 anos de atuação no ramo agropecuário, presença em 11 municípios, mais de 2.400 cooperados e cerca de 1.300 colaboradores, a Copasul tem sede em Naviraí e ocupa papel importante na economia da região.

Foi nesse contexto que a cooperativa identificou a oportunidade de avançar em suas práticas de inclusão e desenvolver uma proposta que aproximasse as pessoas com deficiência das atividades profissionais.

A partir de uma fiscalização relacionada ao cumprimento da cota legal de contratação, a cooperativa estruturou uma alternativa baseada na formação dos jovens e na adaptação dos postos de trabalho.

A proposta foi criar condições para que os participantes conhecessem diferentes áreas da organização e pudessem desenvolver suas habilidades ao longo do processo.

“Na verdade, a gente não estava cumprindo a cota, fomos fiscalizados. E, a partir dessa fiscalização, a gente desenvolveu essa solução da formação do jovem aprendiz PCD, que foi uma forma da gente conseguir adaptar os postos de trabalho aos PCDs, criando então uma maior eficiência nessa adaptação”, explica Adroaldo Taguti, presidente executivo da Copasul.

O programa foi organizado para que os aprendizes passassem por dois a três setores da cooperativa durante o período de capacitação, de 15 meses. Nesse percurso, supervisores, gestores e profissionais de Recursos Humanos acompanhavam o desenvolvimento dos participantes, observando suas habilidades, interesses e possibilidades de adaptação. Ao final, a proposta era efetivá-los nos setores em que demonstrassem maior facilidade de atuação.
Formação que aproxima os jovens do mercado de trabalho

A iniciativa contou com a participação do Sistema OCB/MS, por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop/MS), responsável pela formação dos aprendizes e pela preparação para o ambiente profissional.

O programa Aprendiz Cooperativo é desenvolvido em Mato Grosso do Sul desde 2016. De acordo com Renato Marcelino, gerente de Educação e Desenvolvimento Sustentável do Sistema OCB/MS, a iniciativa oferece cursos como auxiliar administrativo e auxiliar de escritório em cooperativas, combinando atividades teóricas e práticas realizadas em parceria com as organizações.

As turmas próprias do Sescoop/MS recebem, em média, mais de 400 jovens por ano, em diferentes municípios do Estado. A formação contempla 500 horas de atividades, com aulas durante dois dias da semana e vivências práticas nas cooperativas nos demais dias. O objetivo é proporcionar aos participantes conhecimentos e experiências que contribuam para o ingresso no mercado de trabalho.

Além da preparação técnica, o programa acompanha o desenvolvimento socioemocional dos jovens, com atividades voltadas à saúde mental e palestras com profissionais do cooperativismo e de outras áreas.

“O nosso foco é promover o primeiro emprego e a inclusão dos jovens no mercado de trabalho”, explica Renato. Ele destaca que pessoas com deficiência também participam das turmas regulares do programa e que, em Naviraí, a parceria com a Copasul permitiu uma experiência específica: a formação de uma turma exclusiva para aprendizes com deficiência.

Ao todo, 36 jovens participaram da iniciativa. No evento de conclusão, 33 estavam presentes. Segundo Renato, boa parte dos participantes foi efetivada pela cooperativa.

Uma experiência

Os resultados da iniciativa foram além da formação e das oportunidades de contratação. O processo também mobilizou os profissionais que acompanharam os aprendizes nos diferentes setores e contribuiu para ampliar a percepção da equipe sobre as potencialidades das pessoas com deficiência no ambiente de trabalho.

Renato Marcelino destaca que a experiência teve reflexos no desenvolvimento da própria cooperativa. Para ele, a inclusão envolveu não apenas os jovens participantes, mas também suas famílias e os colaboradores que fizeram parte dessa jornada.

“A gente viu ali o próprio diretor-presidente ressaltando o quanto o time, o quanto a cooperativa como um todo ganhou com esse processo e, consequentemente, também a inclusão dessas pessoas com deficiência e das famílias no processo, no mundo do trabalho”, relata.

O gerente avalia que a iniciativa contribuiu para quebrar paradigmas e fortalecer o reconhecimento do potencial profissional das pessoas com deficiência, que passaram a participar efetivamente do desenvolvimento da organização. “Foi uma jornada de bastante significado para nós”, afirma.

O presidente do Sistema OCB/MS, Celso Régis, também destaca o êxito da experiência desenvolvida em Naviraí, em parceria com a Copasul. Ao comentar os resultados, ele ressalta que a iniciativa alcançou não apenas a cooperativa, mas também os jovens aprendizes, suas famílias e a comunidade.

“Em Naviraí, por exemplo, junto com a Copasul, a experiência foi extraordinariamente exitosa”, afirma Régis, ao comentar os resultados da formação da turma de jovens aprendizes com deficiência. Na sequência, ele destaca que o cooperativismo, por sua proximidade com as comunidades e sua capacidade de inclusão e relacionamento com as pessoas, contribui para o desenvolvimento local.

A avaliação reforça a importância da formação profissional como caminho para ampliar oportunidades de trabalho e inclusão, aproximando a capacitação das necessidades das cooperativas e das pessoas.

O desafio

Na cooperativa Copasul, a experiência abriu espaço para novas perspectivas. O presidente executivo, Adroaldo Taguti, afirma que o programa de inclusão de pessoas com deficiência ganhou uma dimensão muito maior do que a inicialmente imaginada pela cooperativa.

A intenção agora é ampliar a iniciativa, contemplando diferentes tipos de deficiência e criando oportunidades para que os profissionais construam uma carreira dentro da organização, com possibilidade de promoção e acesso a funções de liderança.

“Então, nós queremos trabalhar com vários tipos de deficiência, a gente gostaria que o PCD tivesse uma carreira dentro da cooperativa, nós gostaríamos que o PCD fosse promovido à algum cargo de liderança dentro do setor dele, para realmente sermos considerados como uma empresa inclusiva”, afirma.

Taguti também destaca os reflexos positivos da iniciativa no ambiente interno da cooperativa, especialmente na forma como os colaboradores passaram a perceber a inclusão de pessoas com deficiência.

“Os colaboradores acabam tendo uma visão sobre si, sobre a vida, com muito mais realidade do que sem o PCD aqui dentro da cooperativa”, conclui.