Guilherme Bitencourt (*)
Vivemos um momento curioso da história. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, tantas possibilidades de escolha, tantos avanços tecnológicos e tanta facilidade para resolver problemas do cotidiano. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que convivem com ansiedade, esgotamento emocional, dificuldade de concentração, sensação de vazio e relações cada vez mais frágeis.
Essa aparente contradição revela uma das maiores questões do nosso tempo: por que, justamente quando a vida parece mais confortável, cuidar da saúde mental se tornou um desafio tão grande?
A resposta não está em um único fator. A saúde mental sempre foi construída na interação entre o mundo em que vivemos e a maneira como interpretamos esse mundo. O que acontece conosco importa, mas a forma como nosso cérebro organiza, interpreta e atribui significado às experiências é igualmente decisiva.
Os acontecimentos, por si só, não produzem nossas emoções. Eles passam por um processo de interpretação. O cérebro compara o presente com as experiências do passado, projeta cenários para o futuro, cria expectativas, identifica ameaças e, a partir dessa construção, determina como iremos sentir, pensar e agir.
É por isso que duas pessoas podem atravessar uma experiência semelhante e reagir de maneiras completamente diferentes. Não porque uma seja mais forte do que a outra, mas porque cada uma construiu significados distintos para aquilo que viveu.
Essa dinâmica sempre existiu. O que mudou profundamente foi o ambiente.
Durante grande parte da história, convivíamos com um número relativamente pequeno de estímulos. Nossa referência era a família, os amigos, o trabalho, a comunidade e os acontecimentos da própria cidade. Hoje, carregamos o mundo inteiro no bolso. Em poucos minutos somos expostos a notícias, conflitos internacionais, opiniões, críticas, comparações, campanhas publicitárias, vídeos, informações e expectativas que chegam de todos os lados.
O cérebro humano continua funcionando, essencialmente, da mesma forma que funcionava há milhares de anos. O ambiente, porém, mudou em uma velocidade impressionante. Talvez esse seja um dos maiores desafios da saúde mental contemporânea: administrar um volume de estímulos para o qual nunca fomos preparados.
Nesse contexto, a comparação tornou-se quase inevitável.
As redes sociais aproximaram pessoas, democratizaram o acesso à informação e abriram oportunidades extraordinárias. Entretanto, também transformaram a comparação em um hábito silencioso. Passamos a observar diariamente versões cuidadosamente editadas da vida alheia. Enquanto conhecemos nossas inseguranças, nossos fracassos e nossos momentos difíceis, enxergamos nos outros apenas conquistas, viagens, realizações e felicidade.
Sem perceber, começamos a medir nosso valor pelo desempenho, pela aparência, pela produtividade ou pela validação que recebemos. Quando a autoestima passa a depender exclusivamente do olhar do outro, ela se torna extremamente instável. Afinal, nenhuma identidade sólida pode ser construída sobre uma aprovação que nunca está completamente sob nosso controle.
Outro fenômeno característico da atualidade é aquilo que a psicologia chama de paradoxo da escolha. Durante muito tempo acreditamos que quanto mais opções tivéssemos, mais felizes seríamos. No entanto, a experiência mostra que o excesso de possibilidades também produz ansiedade.
Hoje escolhemos praticamente tudo: profissão, cursos, cidades, parceiros, estilos de vida, formas de trabalhar e até mesmo quais versões de nós gostaríamos de apresentar ao mundo. Quanto maior o número de escolhas, maior também a possibilidade de dúvida, arrependimento e insegurança. Sempre permanece a sensação de que talvez existisse uma alternativa melhor.
Essa dificuldade de decidir cria outro problema: a impressão permanente de que estamos atrasados em relação à vida dos outros.
Ao mesmo tempo, vivemos uma transformação silenciosa na forma como nos relacionamos.
Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tantas pessoas relatam sentir solidão. Conversamos por horas através das telas, mas nem sempre construímos intimidade. Compartilhamos informações, mas muitas vezes escondemos nossas fragilidades. Acumulamos contatos, porém sentimos falta de pertencimento.
O ser humano continua necessitando daquilo que sempre necessitou: vínculos seguros, relações de confiança, espaços onde possa ser aceito sem precisar representar um personagem.
Nenhuma tecnologia substitui o olhar atento de alguém que realmente escuta.
Outro aspecto que merece atenção é a perda da capacidade de permanecer em silêncio.
Vivemos ocupando cada intervalo do dia com algum estímulo. Enquanto esperamos uma consulta, abrimos o celular. Durante uma refeição, verificamos mensagens. Antes de dormir, consumimos mais conteúdo. Aos poucos, desaprendemos algo essencial: ficar sozinhos com os próprios pensamentos.
Pensar exige pausa.
Refletir exige tempo.
Criar exige silêncio.
Uma mente constantemente estimulada encontra cada vez menos espaço para organizar emoções, elaborar experiências e produzir significado para aquilo que vive.
Também é impossível falar de saúde mental ignorando o corpo.
O cérebro não funciona isoladamente. Sono inadequado, sedentarismo, alimentação desequilibrada, consumo excessivo de álcool, ausência de atividade física e pouco contato com a natureza influenciam diretamente nossa capacidade de regular emoções, tomar decisões e enfrentar desafios.
Da mesma forma, considero fundamental recuperar espaços para a espiritualidade e para a reflexão. Independentemente da tradição religiosa de cada pessoa, existe uma necessidade humana de encontrar significado para a própria existência. Quando perdemos esse sentido, nenhuma conquista profissional, financeira ou material consegue preencher completamente o vazio que permanece.
Outro equívoco bastante comum consiste em acreditar que saúde mental significa nunca sofrer.
Não significa.
A vida inevitavelmente envolve perdas, mudanças, frustrações, decepções e incertezas. Sentir tristeza diante de um luto, medo diante de uma mudança ou ansiedade antes de um grande desafio não representa, por si só, um adoecimento.
Precisamos evitar dois extremos. O primeiro é banalizar o sofrimento e ignorar sinais importantes de que algo precisa ser cuidado. O segundo é acreditar que toda dor precisa ser imediatamente eliminada ou medicalizada.
Existem situações em que o tratamento medicamentoso é indispensável e transforma vidas. Mas também existem inúmeras circunstâncias em que psicoterapia, atividade física, fortalecimento dos vínculos afetivos, reorganização da rotina, espiritualidade e mudanças de hábitos promovem transformações profundas e duradouras.
Cuidar da saúde mental não significa eliminar completamente o sofrimento. Significa desenvolver recursos para atravessá-lo sem perder a capacidade de continuar vivendo, aprendendo e construindo novos significados.
Ao longo da minha trajetória como terapeuta e professor da Unidakila, tenho percebido que uma das formas mais eficazes de fortalecer a saúde mental é ampliar a maneira como compreendemos o ser humano. Conhecimento não elimina todas as dores da vida, mas nos oferece recursos para enfrentá-las com mais consciência, autonomia e equilíbrio.
É justamente esse compromisso com o desenvolvimento humano que encontro na Unidakila. A instituição vem construindo um trabalho sério, reunindo diferentes áreas do conhecimento e incentivando uma formação que integra ciência, reflexão e crescimento pessoal. Em um mundo que muda tão rapidamente, aprender continuamente talvez seja uma das formas mais inteligentes de cuidar da própria saúde mental.
Por isso, deixo um convite: conheça a Unidakila, descubra os projetos, cursos e iniciativas que estão sendo desenvolvidos e permita-se ampliar sua forma de enxergar o mundo e a si mesmo. Tenho convicção de que você encontrará um ambiente rico em conhecimento, troca de experiências e possibilidades de transformação.
No fim das contas, cuidar da saúde mental não significa construir uma vida sem dificuldades. Significa desenvolver recursos para atravessá-las com mais lucidez, fortalecer o corpo, cultivar relações verdadeiras, encontrar sentido no que fazemos e continuar aprendendo ao longo da vida.
A saúde mental não nasce da ausência do caos. Ela nasce da forma como escolhemos caminhar através dele.
Guilherme Bitencourt é terapeuta e palestrante dedicado ao estudo do comportamento humano, com formação em Hipnose Clínica pela OMNI, pós-graduação em Neurociência e Comportamento pela PUC-RS e graduação em Direito e Administração. Seu trabalho integra conhecimentos da neurociência, da filosofia aplicada à vida real, da espiritualidade e da prática terapêutica, auxiliando pessoas no desenvolvimento da inteligência emocional, dos relacionamentos e da tomada de decisões mais conscientes. Também é docente da Universidade Unidákila, onde contribui na pós-graduação, em cursos e mentorias voltados ao desenvolvimento humano.
(*) Guilherme Bitencourt é terapeuta e faz parte do grupo de docentes da Universidade Dakila


