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quarta-feira, maio 27, 2026
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COLUNA ENTRE LINHAS & SILÊNCIOS: A GUERRA QUE TRAVO CONTRA MIM MESMO

Outro dia me tranquei no quarto para discutir comigo mesmo.
Perdi.
Não imediatamente, claro.
No começo achei que estava indo bem. Entrei firme, decidido a colocar limites em
certas atitudes minhas que já andavam merecendo advertência verbal e talvez até
suspensão preventiva da convivência humana.
Fechei a porta. Sentei na cadeira. Cruzei os braços.
A reunião começou tensa.
Minha impaciência chegou primeiro. Como sempre. Nem bateu na porta. Sentou-se na
ponta da cama com aquela expressão de quem já perdeu completamente a fé na
espécie humana durante uma fila de banco em 2007.
Logo atrás veio meu sarcasmo, atrasado, porém debochado, dizendo que aquilo tudo
era inútil porque pessoas equilibradas não fazem audiência disciplinar consigo mesmas
às três e meia da manhã.
Minha arrogância apareceu depois…
Elegante.
Ela sempre entra nos ambientes como quem está concedendo uma oportunidade ao
restante da humanidade.
A humildade não veio.
A humildade perdeu a inspiração um metro e meio antes de chegar na porta. E foi
embora.
Mandou mensagem dizendo que estava “num processo interno”.
O ser humano é uma construção emocional extremamente improvisada.
Passa metade da vida tentando parecer melhor do que realmente é… e a outra metade
apagando mensagem antes que alguém tire print.
Tem gente que entra em academia para cuidar da saúde.
Outros fazem terapia.
Às vezes eu discuto mentalmente com pessoas que me irritaram em 2014 e saio do
banho vencedor por pontos.

Há indivíduos perigosíssimos vivendo em sociedade absolutamente sem supervisão
emocional alguma. Procurando literalmente quiproquó.
Você percebe isso no supermercado, na feira, no condomínio.
Sempre existe alguém respirando como um búfalo ferido porque o caixa resolveu
passar a compra do cliente da frente em duas etapas, porque o pedido da mesa ao
lado chegou primeiro ou porque o zelador pediu um dia de folga.
Outro dia vi um cidadão publicar:
“Precisamos espalhar mais amor no mundo.”
Três minutos depois ele estava humilhando uma atendente porque o cupom de
desconto não funcionou.
O problema da humanidade é que todos nós nos imaginamos versões muito mais
evoluídas do que realmente somos.
Há pessoas que defendem a paz mundial com uma agressividade impressionante.
Pessoas que escrevem: “Detesto falsidade.”
Mas entram numa festa abraçando gente que criticaram no estacionamento.
E existe um fenômeno psicológico fascinante: ninguém se acha arrogante.
A arrogância é sempre um problema dos outros.
O arrogante, na própria cabeça, é apenas alguém “cansado de gente incompetente”.
Inclusive descobri algo terrível sobre mim mesmo: eu adoro estar certo.
Não de maneira saudável. De maneira artesanal.
Gosto daquela sensação silenciosa de superioridade moral que nasce quando alguém
fala uma bobagem e eu começo a corrigir mentalmente a gramática, a lógica e talvez
até a estrutura óssea da argumentação da pessoa.
Isso é feio. Mas extremamente comum em mim e em grande parte da humanidade.
O ser humano passa o dia inteiro fingindo maturidade enquanto trava batalhas
emocionais contra: áudios de sete minutos que começam com “vou ser breve”,
senha de aplicativo, tampa de pote, gente que responde apenas “ok”, e indivíduos que
mastigam como se estivessem triturando madeira molhada ou chupam o nariz
empinado descaradamente, como se aquilo fosse um instrumento musical de sopro.
Civilização nenhuma sobreviveu tanto tempo por merecimento.

Foi puro improviso psicológico.
Existe, por exemplo, uma violência emocional silenciosa em errar a senha exatamente
sabendo qual é a senha.
E há poucas experiências mais humilhantes do que perder a paciência com um GPS que
literalmente só está tentando ajudar.
“ Vire à direita. ” NÃO ME DÊ ORDENS.
Em determinado momento da reunião comigo mesmo, tentei tirar minhas máscaras.
Experiência desagradável. Porque a máscara social é confortável.
Ela nos permite parecer pacientes sem precisar ser.
Parecer humildes sem correr o risco da humildade verdadeira.
Parecer desapegados enquanto monitoramos discretamente quem visualizou nossa
mensagem e não respondeu, quando cuidamos mais da vida alheia.
E quando finalmente perdemos a paciência, fazemos questão de listar em voz alta
todas as vezes em que fomos falsamente equilibrados por interesse.
A verdade é que quase todo mundo vive interpretando uma versão editada de si
mesmo.
Tem sujeito que acorda humilde e vai estragando ao longo do dia.
E eu talvez nem seja dos piores, o que não chega exatamente a ser uma grande vitória
moral.
Depois de quase duas horas de discussão interna, minha consciência pediu
encerramento da sessão.
Minha arrogância continuou se defendendo.
Meu sarcasmo aplaudiu ironicamente.
Minha impaciência queria ir embora antes do final.
E meu orgulho apresentou recursos e argumentos.
Saí do quarto exausto. Mas levemente mais lúcido.
Descobri que amadurecer talvez não seja virar uma pessoa perfeita.
Talvez seja apenas perceber a tempo quando estamos nos transformando naquele ser
humano insuportável que juramos combater nos outros.
O problema é que essa percepção dura pouco.
Na manhã seguinte tentei abrir um pote de requeijão.

Cinco minutos depois eu estava olhando para o vidro como quem encara um inimigo
político.
Talvez o problema da humanidade nunca tenha sido o ódio.
Talvez tenha sido a tampa do requeijão.
Porque ninguém tenta abrir aquilo em paz.

Autor: João Roberto Giacomini, advogado e escritor

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