A nova gestão da Santa Casa de Campo Grande terá de fechar os “três ralos” que, segundo o juiz Eduardo Lacerda Trevisan, drenam os recursos do hospital: incompetência, desperdício e corrupção. A cobrança acompanha a decisão que determinou o afastamento imediato de toda a Diretoria Corporativa e do Conselho de Administração da instituição.
Para assumir o comando, o magistrado nomeou Luiz Alberto Hiroki Kanamura como gestor provisório por 180 dias, com possibilidade de prorrogação. Ele deverá reorganizar a administração, garantir a continuidade dos atendimentos e prestar contas à Justiça a cada 30 dias.
A decisão foi disponibilizada na noite de quarta-feira (23) e atende a um pedido do Ministério Público Estadual. Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande, apontou suspeitas de corrupção, falta de transparência e risco de paralisação de serviços ao justificar a mudança no comando do hospital.
Na avaliação do juiz, caberá ao novo gestor implantar uma administração “profissional, eficiente e honesta”. Para isso, Kanamura terá poderes para reorganizar equipes, negociar com fornecedores e credores, remanejar recursos e contratar ou rescindir contratos de serviços. Também poderá indicar um administrador para a Operadora Santa Casa Saúde.
Entre suas atribuições está a negociação para renovar o contrato com a Prefeitura de Campo Grande, com participação do Governo do Estado. A gestão deverá seguir um plano com metas de curto e médio prazo, preservar documentos e colaborar com as auditorias em andamento.
Os relatórios mensais terão de detalhar a situação administrativa e financeira, os contratos, as despesas e a aplicação dos recursos públicos e privados, além das providências adotadas para manter os atendimentos. O gestor está proibido de contratar empréstimos bancários.
A ordem de afastamento alcança 20 pessoas, entre elas Alir Terra Lima, que presidia a Santa Casa e já havia sido afastada após a decretação de sua prisão preventiva. Também estão na relação o presidente em exercício, Heitor Miguel Scheibeler, o vice-presidente Ivan Araújo Brandão e o diretor de Finanças Marcos Alceu da Silva Villalba.
A medida inclui outros diretores, conselheiros e a supervisora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística, Monique Gregório de Oliveira, igualmente afastada anteriormente. Trevisan proibiu ainda a recondução da atual Diretoria Corporativa por meio de novas eleições.
Os diretores, integrantes do Conselho de Administração e a supervisora afastados não poderão entrar nas dependências da associação nem da Operadora Santa Casa Saúde, inclusive na filial de Dourados, ou interferir em suas atividades. A restrição busca proteger documentos, sistemas e registros necessários às investigações.
Bancos, cartórios e outras instituições deverão ser comunicados para impedir que os afastados continuem movimentando recursos ou praticando atos de gestão em nome da Santa Casa.
A decisão amplia os afastamentos decorrentes da Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro a partir de investigações do Ministério Público, com atuação do Gecoc e do Gaeco. A apuração envolve suspeitas de desvios de recursos públicos e de valores do plano privado ligado ao hospital.
Para Trevisan, a retirada de parte dos dirigentes não eliminava o risco de interferência nas auditorias. Os demais integrantes da administração, observou, poderiam continuar com acesso a documentos, senhas e relatórios financeiros. O magistrado também mencionou o histórico de resistência à entrega de informações e à fiscalização.
Nesse contexto, citou a nota divulgada pelo Conselho de Administração em 12 de setembro, após a operação. O colegiado manifestou solidariedade aos dirigentes afastados, elogiou os serviços prestados por eles e afirmou aguardar o esclarecimento dos fatos, reiterando confiança na Justiça.
As investigações descritas no processo abrangem duas frentes: o contrato de digitalização de documentos com a Redvalue e as contratações da Operadora Santa Casa Saúde com empresas ligadas ao advogado Paulo Cruz Duarte.
Uma comunicação do Conselho Fiscal reproduzida na decisão aponta pagamentos de aproximadamente R$ 9,62 milhões a empresas de Duarte em 2025. Desse total, R$ 5,57 milhões foram atribuídos a despesas com a abertura de uma filial em Dourados. Os pagamentos integram os fatos investigados.
A situação dos pacientes também pesou na decisão. O juiz destacou o risco de paralisação dos serviços de anestesiologia a partir de 1º de outubro, conforme notificação encaminhada pela empresa Servan em 2 de setembro.
No documento, a prestadora afirmou que não havia recebido os honorários referentes aos serviços desde maio de 2026 e comunicou a rescisão do contrato. Um relato da diretoria clínica, de julho, apontou ainda a falta de roupas para o centro cirúrgico, materiais, equipamentos e instrumentos necessários às cirurgias.
Segundo o magistrado, a falta de insumos, os atrasos nos pagamentos e a possibilidade de interrupção dos serviços demonstram a urgência de reorganizar o hospital. A gestão provisória deverá conduzir esse processo e assegurar a manutenção da assistência.
A medida é cautelar, e a ação continuará em tramitação. O Estado e o Município de Campo Grande deverão ser citados para apresentar defesa no prazo de 30 dias. Os demais réus terão 15 dias, conforme as regras de contagem estabelecidas na decisão. O juiz autorizou o cumprimento das citações e intimações inclusive aos domingos, feriados e fora do horário habitual.
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