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terça-feira, abril 21, 2026
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COLUNA ENTRE LINHAS & SILÊNCIOS: Manual não autorizado de quem já caiu da cama

Há quedas que a gente lembra.

E há aquelas que o corpo registra,
mas a memória, por respeito, resolve apagar.

Eu, por exemplo, já caí da cama algumas vezes.
Não sei dizer quantas — mas sei que nenhuma delas foi elegante.

Cair da cama não é como tropeçar na rua.
Na rua, você pode culpar o buraco, a calçada, a obra mal feita.

Na cama…
a responsabilidade é quase toda sua.

Ou do sonho.

Porque há sonhos que te empurram…

Você está lá, resolvendo um problema importante — daqueles que você não resolveu acordado — quando, de repente, o mundo muda de plano
e você descobre, com o corpo inteiro,
que a gravidade não negocia.

O chão chega rápido. Sempre chega.

E cair da cama, depois de adulto,
é um evento que exige explicação interna.

Você não conta para qualquer um.

— Caí da cama.

A frase, por si só, já vem com um leve constrangimento.

Mas, pensando bem, talvez a gente nunca tenha parado de cair.

Só mudamos de altura. Antes era da cama.

Depois passamos a cair de coisas mais sofisticadas —
expectativas, certezas, decisões bem defendidas.

Já caí de convicções que eu sustentava com firmeza admirável.
De promessas com prazo de validade invisível.
De silêncios que pareciam maturidade
e eram apenas ausência de resposta.

Caí também em mim mesmo — o que, convenhamos, não é uma queda rápida.

Não faz barulho, mas bagunça tudo por dentro.

E o curioso é que essas quedas não têm plateia.

Ninguém vê. Mas a gente sente.

E levanta. Às vezes rápido, como quem finge que nada aconteceu.

Outras vezes mais devagar, porque o impacto foi maior
e a consciência resolveu participar.

Com o tempo, a gente aprende algumas coisas sobre cair.

Primeiro: não há técnica perfeita.
Segundo: o chão não é inimigo.
E terceiro — talvez o mais honesto —: levantar não é vencer.

É continuar.

E isso, em muitos dias, já é um excelente resultado.

Hoje, quando penso nas vezes em que caí da cama,
não lembro da dor.

Lembro do susto.

Daquele segundo em que o mundo não era o que eu imaginava
e eu ainda não sabia onde colocar o corpo.

Talvez seja isso que a vida faz com a gente.

Só troca o cenário.

As quedas ficam mais complexas,
e a gente demora um pouco mais para perceber que já está no chão.

Mas levanta.

Nem sempre melhor.
Nem sempre mais forte.

Mas mais consciente
de que resistir não é nunca cair.

É continuar existindo,
mesmo depois de algumas quedas mal explicadas.

E, sejamos honestos,
a gente ainda vai cair de novo.

Não dá para evitar.

Mas dá para entender uma coisa: o chão, no fim das contas, não é o fim.

É só o lugar onde a gente descobre que ainda dá para levantar.

Levantar com dor ou sem dor, com lágrima nos olhos ou não,
com energia ou apenas com o que restou — mas levantar… ainda é preciso.

Autor: João Roberto Giacomini, advogado e escritor

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