Há quedas que a gente lembra.
E há aquelas que o corpo registra,
mas a memória, por respeito, resolve apagar.
Eu, por exemplo, já caí da cama algumas vezes.
Não sei dizer quantas — mas sei que nenhuma delas foi elegante.
Cair da cama não é como tropeçar na rua.
Na rua, você pode culpar o buraco, a calçada, a obra mal feita.
Na cama…
a responsabilidade é quase toda sua.
Ou do sonho.
Porque há sonhos que te empurram…
Você está lá, resolvendo um problema importante — daqueles que você não resolveu acordado — quando, de repente, o mundo muda de plano
e você descobre, com o corpo inteiro,
que a gravidade não negocia.
O chão chega rápido. Sempre chega.
E cair da cama, depois de adulto,
é um evento que exige explicação interna.
Você não conta para qualquer um.
— Caí da cama.
A frase, por si só, já vem com um leve constrangimento.
Mas, pensando bem, talvez a gente nunca tenha parado de cair.
Só mudamos de altura. Antes era da cama.
Depois passamos a cair de coisas mais sofisticadas —
expectativas, certezas, decisões bem defendidas.
Já caí de convicções que eu sustentava com firmeza admirável.
De promessas com prazo de validade invisível.
De silêncios que pareciam maturidade
e eram apenas ausência de resposta.
Caí também em mim mesmo — o que, convenhamos, não é uma queda rápida.
Não faz barulho, mas bagunça tudo por dentro.
E o curioso é que essas quedas não têm plateia.
Ninguém vê. Mas a gente sente.
E levanta. Às vezes rápido, como quem finge que nada aconteceu.
Outras vezes mais devagar, porque o impacto foi maior
e a consciência resolveu participar.
Com o tempo, a gente aprende algumas coisas sobre cair.
Primeiro: não há técnica perfeita.
Segundo: o chão não é inimigo.
E terceiro — talvez o mais honesto —: levantar não é vencer.
É continuar.
E isso, em muitos dias, já é um excelente resultado.
Hoje, quando penso nas vezes em que caí da cama,
não lembro da dor.
Lembro do susto.
Daquele segundo em que o mundo não era o que eu imaginava
e eu ainda não sabia onde colocar o corpo.
Talvez seja isso que a vida faz com a gente.
Só troca o cenário.
As quedas ficam mais complexas,
e a gente demora um pouco mais para perceber que já está no chão.
Mas levanta.
Nem sempre melhor.
Nem sempre mais forte.
Mas mais consciente
de que resistir não é nunca cair.
É continuar existindo,
mesmo depois de algumas quedas mal explicadas.
E, sejamos honestos,
a gente ainda vai cair de novo.
Não dá para evitar.
Mas dá para entender uma coisa: o chão, no fim das contas, não é o fim.
É só o lugar onde a gente descobre que ainda dá para levantar.
Levantar com dor ou sem dor, com lágrima nos olhos ou não,
com energia ou apenas com o que restou — mas levantar… ainda é preciso.
Autor: João Roberto Giacomini, advogado e escritor


