Uma iniciativa estratégica idealizada pelo Fórum Rota Sustentável, coordenado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), ganhou destaque internacional nesta terça-feira (24), durante a 15ª Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15). No Espaço Conexões em Fronteiras, a Casa do Homem Pantaneiro sediou o lançamento do Mapa de Colisões com a Fauna (Cofauna), plataforma digital inédita que visa transformar dados de atropelamentos de fauna em inteligência ambiental aplicada.
O Cofauna é uma idealização do Fórum Rota Sustentável de Prevenção a Colisões com a Fauna Silvestre, coordenado pelo MPMS, consolidando um esforço conjunto para reduzir os impactos das colisões com a fauna no Estado. Segundo o Promotor de Justiça e Coordenador do Núcleo Ambiental, Luciano Furtado Loubet, a plataforma consolida um instrumento estratégico que permitirá ao poder público agir com mais precisão no combate aos atropelamentos de fauna, transformando dados dispersos em ações efetivas de proteção.
“Ter um local para compilar esses dados de colisão de fauna é essencial, com várias entidades trabalhando juntas, porque isso permite que a sociedade veja o que está acontecendo e cobre a autoridade pública a atuar nisso. Nós levantamos até agora 12.786 ocorrências e, só de antas, temos 360 registros indicando os pontos”, destacou.
Criada para monitorar atropelamentos de animais silvestres nas rodovias do Estado, a plataforma digital e georreferenciada inclui também dados do perímetro urbano da capital, por meio do Projeto Quapivara, do MPMS. Com o aperfeiçoamento do monitoramento das colisões com a fauna, o Cofauna vai proporcionar melhor orientação no licenciamento de novas vias e concessões, além de subsidiar a construção de passagens de fauna e cercamentos, mitigando impactos sobre animais residentes e migratórios e reduzindo o risco de acidentes.
Para a bióloga Fernanda Zimmermann Teixeira, do Center for Large Landscape Conservation, há um esforço crescente em novas rodovias, com a implementação de passagens de fauna, mas ainda é necessária uma mudança de cultura nas tomadas de decisão.
“Acho que um desafio que a gente tem cada vez mais é: como vamos manejar esses dados, que sistemas vamos gerar para aplicar essa informação na tomada de decisão? Implementar não é um ponto final. A gente implementa, precisa monitorar a efetividade e adaptar o que for necessário”.
A bióloga do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Patrícia Médici, apresentou dados sobre colisões envolvendo antas, espécie vulnerável e presente na lista de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
“Chegamos ao registro de 700 carcaças de antas nas rodovias do Estado, uma média de 100 animais por ano. No mesmo período, 49 pessoas perderam a vida nessas colisões. Seguimos avançando: o processo de mitigação na BR‑262 finalmente foi iniciado e representa uma boa notícia. São 13 anos de trabalho sistemático, com muitas organizações comprometidas em coletar informações e produzir soluções”.
A Procuradora do Estado e Coordenadora Jurídica da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), Suleimar Rosa, enfatizou que o processo de mitigação possui três etapas: conscientização, construção de soluções e implementação.
“Os novos projetos rodoviários já nascem com a metodologia prevista no manual, mas nas rodovias antigas ainda enfrentamos desafios técnicos, de engenharia e, sobretudo, de financiamento. Nosso objetivo é construir uma política pública sólida, capaz de reunir todos os órgãos responsáveis, definir competências e orientar ações de mitigação em todo o Estado”.
A iniciativa também está integrada aos resultados do Fórum Rota Sustentável de Prevenção a Colisões com a Fauna Silvestre, criado em 2024 e coordenado pelo MPMS, que reúne instituições como TCE, Ibama, Imasul, PRF, PRE, UFMS, UEMS e as organizações da sociedade civil ICAS, SOS Pantanal e Instituto Homem Pantaneiro. O Fórum já contribuiu para vistorias e recomendações técnicas em rodovias estaduais e federais, incluindo MS‑040, MS‑338, MS‑395, BR‑262 e BR‑267, identificando a necessidade de cercamentos integrais em trechos críticos, como a MS‑345.
O Promotor de Justiça Luciano Loubet ressalta que o Cofauna nasce de um processo de diálogo e cooperação entre diferentes setores, mas lembra que ainda é preciso romper com a lógica antiga de “primeiro o asfalto, depois a fauna”, consolidando uma nova cultura administrativa.
“A nossa ideia agora é continuar compilando esses dados, criar um padrão de registro, porque muitas vezes uma carcaça é recolhida e nem entra no sistema, e trabalhar para que esse monitoramento seja cada vez mais completo”.
Acesse o Cofauna aqui.
COP15
A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15) reúne, entre 23 e 29 de março de 2026, em Campo Grande (MS), representantes de mais de 130 países, cientistas, organizações internacionais, povos indígenas e sociedade civil para debater soluções globais de conservação da fauna migratória. Pela primeira vez sediado no Brasil, o encontro coloca o país no centro das discussões multilaterais sobre biodiversidade e proteção de rotas migratórias, sob a liderança do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.


