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terça-feira, setembro 8, 2026
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Riedel aponta renda das famílias como próximo desafio do crescimento de MS

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O governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, aponta como um dos principais desafios de Mato Grosso do Sul para os próximos anos fazer com que o crescimento da economia chegue de maneira mais intensa ao bolso das famílias. Depois de um ciclo marcado pela expansão do emprego, chegada de investimentos e aumento da atividade econômica, a próxima etapa, segundo ele, precisa ser percebida dentro de casa.

Para Riedel, desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), pela abertura de empresas ou pelo volume de investimentos privados. O resultado precisa aparecer na capacidade de o trabalhador pagar as contas, melhorar de renda e planejar o futuro.

“Significa salário que acompanha as despesas, emprego com perspectiva, escola pública que atende os filhos durante toda a jornada, saúde acessível, crédito responsável e condições para que um pequeno negócio cresça”, afirma.

O desafio aparece no cotidiano de famílias como a de Ana Luísa e Marcelo, moradores de Dourados. O casal vive com os dois filhos em uma casa simples e tem renda familiar de aproximadamente R$ 2,5 mil mensais.

Ela trabalha de forma autônoma com a venda de lingerie. Marcelo é funcionário de uma empresa do setor agropecuário e recebe salário fixo.

Antes de qualquer plano, entram na conta alimentação, aluguel, água, energia e transporte. São as despesas básicas que determinam se haverá ou não alguma sobra no fim do mês.

“Hoje nossa renda gira em torno de R$ 2.500 por mês. Ana Luísa trabalha de forma autônoma como vendedora de lingerie e eu sou funcionário de uma empresa que comercializa produtos agropecuários, recebo um salário fixo, que garante parte importante do orçamento familiar”, conta Marcelo.

Mesmo diante do orçamento apertado, o casal tenta projetar o futuro. A prioridade são os filhos e a expectativa de que a educação amplie as oportunidades da família. Ana Luísa também pretende aumentar as vendas.

“Quero aumentar minha carteira de clientes e assim aumentar meus ganhos”, afirma.

Emprego cresce, mas despesas pressionam famílias

Os indicadores mostram que Mato Grosso do Sul atravessa um período de mercado de trabalho aquecido.

O Estado chegou a 1,46 milhão de pessoas ocupadas em 2025, avanço de 4% em relação ao ano anterior. O rendimento médio do trabalho atingiu R$ 3.768 e o saldo de empregos formais encerrou o ano positivo em 19.756 vagas.

No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego ficou em 3,8%, a sexta menor do Brasil.

Os números mostram crescimento da atividade econômica, mas não revelam necessariamente quanto sobra no orçamento depois do pagamento de supermercado, aluguel, energia, transporte e prestações.

Uma família pode estar empregada e ainda assim não conseguir formar reserva financeira. Também pode ter aumentado a renda e continuar utilizando o cartão de crédito para complementar as despesas mensais.

É justamente nesse ponto que a gestão estadual pretende aproximar os indicadores econômicos da sensação de segurança financeira das famílias.

Cartão passa a complementar orçamento

O nível de endividamento ajuda a mostrar a pressão sobre o orçamento doméstico.

Em maio de 2026, 72,3% das famílias de Campo Grande tinham algum comprometimento da renda com cartão de crédito, carnês, empréstimos ou financiamentos.

O levantamento é restrito à Capital e não pode ser automaticamente projetado para todo o Estado, mas revela as dificuldades enfrentadas por parte das famílias urbanas.

Ter dívidas, porém, não significa necessariamente estar inadimplente. O problema aumenta quando o crédito deixa de ser utilizado para financiar um bem ou investimento e começa a cobrir despesas básicas e recorrentes.

Em abril, 29,5% das famílias campo-grandenses tinham contas atrasadas e 13,1% afirmavam não possuir condições de quitá-las naquele momento.

Segundo a economista Daniela Teixeira Dias, parte dessa pressão está relacionada ao aumento do preço de itens essenciais, cujo impacto pode ser maior no cotidiano das famílias do que aquele percebido pelo índice geral da inflação.

“Quando olhamos o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e analisamos grupos específicos, como alimentos, bebidas e transportes, percebemos que a conta do fim do mês já não fecha da mesma forma que antes. Para comprar os mesmos produtos de 2024 ou 2025, as famílias precisam desembolsar mais dinheiro”, explica.

O problema aumenta quando despesas que voltarão no mês seguinte são parceladas. A nova compra passa a dividir espaço com parcelas anteriores, comprometendo antecipadamente a renda.

“Hoje o endividamento está sendo usado para pagar contas do dia a dia. São compras de supermercado, contas de água, luz e outras despesas fixas. Como esses gastos se repetem todos os meses, existe um risco maior de formação de uma bola de neve financeira”, acrescenta Daniela.

Esse comportamento também afeta outros setores. Quando alimentação, moradia, transporte e energia consomem uma fatia maior da renda, sobra menos dinheiro para lazer, entretenimento, serviços e aquisição de outros produtos.

Serviço público também interfere na renda

Para Riedel, melhorar a renda disponível não depende apenas do aumento direto dos salários. A qualidade dos serviços públicos também pode reduzir despesas das famílias.

Uma vaga em escola de tempo integral, por exemplo, pode diminuir gastos com alimentação e cuidados das crianças durante o contraturno, além de permitir que pais permaneçam por mais tempo no trabalho.

Em 2025, 61,2% das escolas estaduais ofereciam alguma modalidade de ensino em tempo integral, alcançando mais de 52 mil estudantes. O índice representa a proporção de unidades com a modalidade e não o percentual total de alunos atendidos.

“A mesma lógica vale para saúde, transporte, saneamento e segurança. Quando a família precisa pagar pelo serviço que não encontra na rede pública, sua renda disponível diminui”, afirma Riedel.

Para famílias que já concentram grande parte da renda nas despesas essenciais, cada serviço disponível gratuitamente ou com menor custo representa maior margem no orçamento.

Qualificação para buscar salários maiores

Com o desemprego em patamares baixos, outro desafio passa a ser melhorar a qualidade das vagas e ampliar as oportunidades de ascensão profissional.

Ter emprego garante renda, mas não necessariamente cria perspectiva de aumento salarial. Por isso, a qualificação profissional passou a integrar a estratégia estadual de aproximar os trabalhadores do processo de industrialização de Mato Grosso do Sul.

Criado em 2025, o MS Qualifica Digital reúne cursos e oportunidades de emprego, integrando Governo do Estado, Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), empresas, sindicatos e instituições de ensino.

O objetivo é fazer com que a qualificação tenha reflexos concretos, permitindo promoções, mudanças de função ou ingresso em empregos mais bem remunerados.

A estratégia estadual busca ligar a chegada de novas indústrias à formação da mão de obra local. Dessa forma, trabalhadores sul-mato-grossenses poderão disputar não apenas as vagas operacionais, mas também postos com maior nível de remuneração.

Pequenos negócios complementam renda

O trabalho de Ana Luísa também exemplifica outra realidade comum: a combinação entre emprego formal e atividades autônomas para reforçar o orçamento familiar.

Enquanto Marcelo depende do salário mensal, ela vende lingerie e busca ampliar a clientela. Em muitas famílias, negócios semelhantes começam como complemento da renda e podem se tornar uma das principais alternativas para melhorar a situação financeira.

Esses empreendimentos geralmente surgem dentro de casa, com pouco capital e, muitas vezes, sem separação clara entre as finanças pessoais e as do negócio.

A falta de orientação, acesso a mercado e crédito adequado pode limitar o crescimento.

O ciclo 2025–2028 do Cidade Empreendedora está presente em 36 municípios, por meio de parceria entre Governo do Estado, Sebrae/MS e prefeituras, com ações voltadas à simplificação, compras públicas, capacitação e apoio aos pequenos empreendedores.

Para Riedel, os efeitos dos grandes investimentos também precisam alcançar esses negócios.

“Quando uma indústria chega, seus efeitos não devem terminar nos portões da fábrica. Podem alcançar restaurantes, mercados, oficinas, transportadores e fornecedores. Fazer essa renda circular é uma forma de aproximar o crescimento das famílias”, afirma.

Próxima etapa será medida dentro de casa

Mato Grosso do Sul chega ao atual momento com desemprego baixo, crescimento do emprego formal, rendimento médio do trabalho elevado em comparação com outras unidades da Federação e novos investimentos privados.

O desafio agora é menos visível nas grandes estatísticas.

Ele será percebido quando o trabalhador conseguir transformar uma qualificação em aumento salarial, quando o pequeno empreendedor ampliar o faturamento, quando uma escola em tempo integral permitir aos pais trabalhar e quando uma família não precisar recorrer ao cartão para completar as compras básicas.

Para Riedel, a continuidade dos investimentos precisa caminhar ao lado da qualificação profissional, da ampliação dos serviços públicos, do crédito responsável e do fortalecimento dos pequenos negócios.

É uma mudança na forma de medir o desenvolvimento. Depois de avançar na economia e no emprego, o resultado passa a ser avaliado também pelo dinheiro disponível depois que as contas são pagas e pela capacidade das famílias de fazer planos.

Em Dourados, Ana Luísa resume essa expectativa de maneira simples: ampliar a clientela e ganhar mais.

Entre o salário de Marcelo, as vendas feitas por ela e as despesas de uma casa com dois filhos, o crescimento econômico deixa de ser apenas um indicador. Para a família, progresso significa conseguir ir além de fechar as contas do mês e começar a construir um futuro com mais segurança.

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