Às vésperas da Bienal do Livro de São Paulo, a presença da literatura sul-mato-grossense no circuito nacional provoca uma discussão que vai além de um único evento: como fazer nossos livros atravessarem as fronteiras do Estado?
A Bienal Internacional do Livro de São Paulo começa nesta sexta-feira, 4 de setembro, no Distrito Anhembi, reunindo editoras, autores, leitores e profissionais do mercado editorial. Um dos maiores acontecimentos literários do país oferece também uma oportunidade para Mato Grosso do Sul olhar para a própria produção e fazer uma pergunta necessária: qual é, efetivamente, a presença da nossa literatura nos grandes espaços editoriais brasileiros?
A questão é maior do que procurar nomes sul-mato-grossenses na programação de uma bienal.
Mato Grosso do Sul possui escritores, poetas, pesquisadores, academias, universidades, editoras, instituições culturais e uma produção literária construída ao longo de décadas. O que ainda parece insuficiente é uma estratégia permanente capaz de fazer essa produção circular nacionalmente.
Não se trata de responsabilizar São Paulo, a Bienal ou seus organizadores. Grandes eventos são apenas a parte mais visível de uma cadeia que começa muito antes da abertura dos portões.
Presença nacional exige planejamento, articulação entre autores e instituições, participação contínua em feiras e festivais, aproximação com editoras, distribuição, divulgação, intercâmbio cultural e políticas públicas que compreendam algo bastante simples: livro também precisa viajar.
Essa dificuldade torna-se ainda mais evidente para o escritor independente. Muitas vezes, a mesma pessoa escreve, revisa, publica, divulga, vende, distribui, inscreve a obra em concursos e eventos e ainda financia a própria circulação. É exigir do autor não apenas literatura, mas praticamente toda a estrutura que deveria existir ao redor dela.
Há excelentes iniciativas individuais em Mato Grosso do Sul. Existem instituições importantes e pessoas trabalhando seriamente pela literatura. O problema é que esforços isolados, por melhores que sejam, dificilmente constituem uma política permanente de presença nacional.
Talvez seja necessário distinguir duas coisas que frequentemente confundimos: reconhecimento e circulação.
Homenagens, prêmios, academias, lançamentos e eventos locais são importantes para preservar a memória e valorizar quem produz cultura. Mas reconhecimento dentro de nossas fronteiras, sozinho, não faz um livro chegar a outros Estados nem apresenta um escritor a novos leitores.
Por isso, a discussão não deveria aparecer apenas às vésperas de uma Bienal.
Deveria permanecer na agenda das instituições culturais, universidades, academias, editoras, imprensa e poder público: onde queremos que a literatura produzida em Mato Grosso do Sul esteja daqui a cinco ou dez anos?
Matéria-prima literária não nos falta.
O Pantanal, as fronteiras, os povos originários, as migrações, a formação das cidades, a memória regional e o encontro de diferentes culturas oferecem uma riqueza extraordinária. E temos escritores capazes de transformar tudo isso em romance, poesia, conto, crônica e ensaio.
Conheço essa realidade também como escritor. Radicado em Mato Grosso do Sul, publiquei em 2026 Enquanto Muitos Gritam, Nós Lemos! pela Carlini & Caniato Editorial, de Mato Grosso. A experiência demonstra que as fronteiras estaduais podem ser atravessadas pela literatura. O desafio seguinte é maior: transformar essas conexões entre autores, editoras e instituições do Centro-Oeste em presença contínua nos grandes circuitos nacionais.
O que talvez ainda falte seja construir uma estrada entre quem escreve aqui e quem pode nos ler lá fora.
E essa estrada não será construída apenas com discursos ou solenidades. Depende de projeto, continuidade, investimento, organização e presença.
Por isso, antes de perguntarmos por que determinado escritor ou determinado Estado não foi convidado para este ou aquele grande acontecimento literário, talvez exista uma pergunta mais importante:
por que ainda esperamos pelo convite?
Mato Grosso do Sul já escreve.
Agora precisa fazer seus livros viajarem.
Autor: João Roberto Giacomini, advogado e escritor






