O brasileiro não assiste a uma Copa do Mundo. Ele abandona temporariamente a própria profissão e assume um cargo na comissão técnica da Seleção. Durante noventa minutos, dentistas deixam de entender de dentes, advogados suspendem o conhecimento das leis, médicos esquecem a pressão arterial dos pacientes e passam todos a conhecer, com precisão científica, o momento exato em que o treinador deveria substituir o volante pelo atacante. O país inteiro torna-se especialista em pressão alta, linha baixa, bloco médio, amplitude, profundidade e outras palavras que ninguém utilizava antes de um comentarista desenhar setas numa tela.
Eu mesmo, que não conseguiria correr da sala até a cozinha sem solicitar atendimento médico, percebi claramente que o Brasil precisava adiantar suas linhas.
— Tem que pressionar a saída! — gritei.
O cachorro levantou a cabeça.
Foi a única criatura da casa que demonstrou disposição para pressionar alguém.
Em campo, o Brasil tratava a bola com o cuidado de quem recebera um objeto emprestado e precisava devolvê-lo sem marcas. O goleiro entregava ao zagueiro. O zagueiro devolvia ao goleiro. O goleiro passava ao lateral. O lateral, dominado pela saudade, devolvia ao zagueiro. O volante aproximava-se, recebia a bola, pensava na vida, recordava a infância, refletia sobre a brevidade da existência humana e tocava para trás.
O narrador anunciava:
— O Brasil trabalha pacientemente a jogada!
Paciente era o torcedor.
A jogada estava internada.
Depois de oito minutos de passes laterais, a bola finalmente atravessava o meio de campo. Quando chegava ao atacante, ele já estava cercado por três noruegueses, dois fotógrafos, um segurança do estádio e, provavelmente, pelo cônsul da Noruega.
Ainda assim, o comentarista mantinha a serenidade:
— A Seleção precisa encontrar os espaços.
Eu já havia encontrado vários.
Havia espaço na defesa, no meio-campo, entre os jogadores e, principalmente, entre aquilo que esperávamos e aquilo que estávamos assistindo.
A Noruega não precisava inventar muito. Bastava esperar. O Brasil parecia aquele sujeito que entra numa agência bancária, pega a senha, senta-se, olha o painel e aguarda educadamente ser eliminado.
Quando a Noruega atacava, nossos jogadores corriam atrás da bola com a expressão de funcionários informados, cinco minutos antes do expediente terminar, de que haveria uma reunião extraordinária.
Não se pode dizer que permanecessem completamente parados. Seria uma injustiça. Alguns mexiam os braços. Outros apontavam para lugares onde os companheiros deveriam estar. Houve também quem corresse depois que a bola já havia passado, provavelmente para preservar a estatística de distância percorrida.
A Copa revelou que o futebol moderno possui dados para tudo. Mede-se velocidade, aceleração, intensidade, posse, mapa de calor e até o número de vezes em que um jogador respirou perto da grande área. Talvez devessem criar uma estatística nova: quilômetros percorridos sem nenhuma intenção reconhecível.
Nessa categoria, teríamos brigado pelo título.
O Brasil chegou a ter apenas 34% de posse de bola — a menor marca da Seleção em uma partida de Copa desde o início desse tipo de registro —, façanha curiosa para o país que passou décadas ensinando ao mundo que a bola deveria gostar de permanecer em pés brasileiros.
E então veio o pênalti.
Por alguns segundos, milhões de brasileiros respiraram novamente. Era o momento de abrir o placar, recuperar a confiança e provar que o sofrimento anterior fazia parte de uma estratégia tão sofisticada que nem os jogadores haviam conseguido compreendê-la.
O cobrador caminhou até a bola.
O país silenciou.
A Noruega rezou.
A bola não entrou.
Nesse momento, ouvi um ruído estranho vindo da cozinha. Era a esperança retirando seus pertences da geladeira.
O narrador tentou consolar:
— Faz parte!
É claro que faz parte.
Perder pênalti faz parte. Errar passe faz parte. Tomar gol faz parte. Ser eliminado faz parte. O esporte só existe porque ninguém entra em campo com vitória registrada em cartório.
Mas uma coisa é perder jogando.
Outra é perder colaborando.
O Brasil não parecia ter sido derrotado pela Noruega. Parecia ter auxiliado na organização do próprio velório, escolhido as flores, confirmado a presença dos convidados e ainda segurado a porta para o adversário entrar.
Quando Haaland marcou, não houve exatamente surpresa. Houve confirmação. O gigante norueguês apareceu diante da defesa brasileira como quem chegava para receber uma encomenda previamente paga.
Pouco depois, marcou novamente.
Dois gols.
Dois carimbos.
Dois recibos entregues ao futebol brasileiro.
No fim, o Brasil ainda descontou, talvez para que a súmula não registrasse abandono de campo. Mas já era tarde. Perdemos por 2 a 1 e voltamos a ser eliminados por uma seleção europeia, desta vez nas oitavas de final — nossa pior colocação desde 1990.
Enquanto os jogadores deixavam o gramado, entrou em campo a única equipe brasileira verdadeiramente preparada para aquela Copa: a seleção nacional dos fabricantes de memes.
Essa, sim, pressionou desde o primeiro minuto.
Antes de o juiz guardar o apito, Haaland já carregava jogador brasileiro no colo, atacantes procuravam a grande área pelo GPS, volantes eram dados como desaparecidos e a remada viking dos noruegueses atravessava as redes sociais levando, junto com os remos, os últimos destroços da nossa autoestima.
O brasileiro produz memes com uma velocidade que nossa Seleção não conseguiu imprimir nos contra-ataques. Uma imagem surge em Pernambuco, recebe legenda em Minas Gerais, ganha música no Rio de Janeiro e chega ao Mato Grosso do Sul antes de o VAR terminar de traçar a primeira linha.
É a industrialização instantânea da desgraça.
Há países que, depois de uma eliminação, convocam especialistas, reformulam categorias de base e discutem seus modelos esportivos.
Nós colocamos a cabeça do treinador no corpo de um motorista de aplicativo e escrevemos:
— Corrida encerrada. Destino: aeroporto.
É pouco?
Talvez.
Mas é o mecanismo nacional de sobrevivência. O brasileiro ri para não invadir a televisão e substituir pessoalmente os onze jogadores.
Perder, repito, não é vergonha.
A derrota é uma possibilidade legítima de qualquer competição. O adversário também treina, também sonha, também tem talento e não viaja milhares de quilômetros apenas para participar da fotografia oficial. A Noruega mereceu vencer porque fez o que se espera de uma equipe num jogo eliminatório: acreditou que poderia ganhar.
O problema não foi a derrota.
Foi a impressão de que o Brasil entregou o jogo embrulhado, colocou um laço amarelo e ainda perguntou se a Noruega precisava de nota fiscal.
Há derrotas que provocam tristeza. Outras despertam revolta. E existem aquelas que deveriam constar no currículo dos envolvidos sob a denominação de atestado permanente de burrice esportiva.
Não por terem errado.
Mas por terem repetido o erro, ignorado o perigo, recusado a intensidade e deixado para reagir quando a Copa já estava fechando as portas.
Onze jogadores entraram em campo, mas em alguns momentos pareciam onze turistas cansados procurando o portão de embarque. A camisa amarela estava presente. O espírito que deveria preenchê-la havia sido despachado em outro voo.
Talvez por isso tanta gente tenha se lembrado de Ayrton Senna.
Não porque o automobilismo possa ser comparado diretamente ao futebol. Nem porque Senna vencesse sempre. Ele perdeu corridas, enfrentou carros inferiores, cometeu erros e sofreu derrotas.
Mas ninguém o viu desistir antes da bandeirada.
A chuva aumentava, a pista desaparecia, o carro ameaçava escapar, e ainda assim havia nele uma espécie de compromisso íntimo com a tentativa. Senna podia não vencer, mas o Brasil jamais precisava perguntar se ele havia desejado vencer.
Era visível.
Estava nas mãos agarradas ao volante, no rosto exausto, na voz, no risco e até no silêncio.
Talvez seja isso que tenha faltado à Seleção: alguém que tratasse aquela camisa não como uniforme de trabalho, plataforma publicitária ou extensão de uma carreira milionária, mas como uma responsabilidade que não cabe integralmente em contratos, estatísticas, redes sociais e campanhas patrocinadas.
Os jogadores são brasileiros. Ninguém lhes pode retirar a nacionalidade. Muitos construíram carreiras extraordinárias, enfrentaram dificuldades e chegaram legitimamente aos maiores clubes do mundo. Mas vestir a camisa do Brasil exige mais do que possuir um passaporte brasileiro.
Exige parecer brasileiro quando a bola começa a correr.
Exige indignação.
Exige urgência.
Exige aquela coragem quase irracional de quem entende que uma Copa não é apenas mais uma competição entre tantas, espremida entre contratos europeus, publicidade, férias e a próxima temporada.
E talvez esteja aí nosso problema.
Temos excelentes marcas pessoais, contratos internacionais, milhões de seguidores, patrocinadores, assessores, estatísticas, conteúdos exclusivos e comemorações previamente coreografadas.
Faltou apenas uma equipe.
Um time não é formado por onze patrimônios independentes reunidos durante algumas semanas. Um time nasce quando alguém corre pelo companheiro, quando o talento aceita obedecer ao coletivo e quando todos compreendem que a camisa pertence temporariamente a eles, mas definitivamente ao país.
Também seria saudável que a Seleção Brasileira voltasse a reconhecer a inteligência existente no próprio futebol nacional. O Brasil exporta jogadores, técnicos, preparadores, estudiosos e profissionais. Mesmo assim, frequentemente se comporta como se precisasse importar uma autorização estrangeira para compreender sua própria identidade.
Não se trata de fechar as portas ao conhecimento exterior. Trata-se de não deixar a alma do lado de fora.
O mundo futebolístico não nos deve reverência eterna.
Ninguém é obrigado a temer o Brasil porque Pelé jogou, Garrincha driblou, Romário decidiu, Ronaldo voltou a sorrir ou Marta ensinou gerações a respeitarem o futebol brasileiro.
A história merece respeito.
O time atual precisa conquistá-lo.
Não se vence uma partida apresentando cinco estrelas bordadas no peito. Estrela não marca, não corre, não recompõe e não disputa bola. Serve, no máximo, para lembrar aos atuais jogadores que outros, antes deles, fizeram o que hoje parece tão difícil.
Depois daquela atuação, o mundo continuará respeitando nosso passado.
Temer nosso presente já é outra conversa.
Muito provavelmente, enquanto você termina de ler esta crônica, alguém já transformou este último parágrafo no desejo de escalar uma nova Seleção. Não uma equipe escolhida pelo número de seguidores, pelo valor de mercado ou pelo interesse das BETs, mas um verdadeiro time de brasileiros — brasileiros não apenas na certidão, mas na coragem, na entrega, na inconformidade e na disposição de deixar em campo até aquilo que já não tinham.
Talvez o tão sonhado hexa demore mesmo a chegar.
Não por falta de talento.
O Brasil ainda produz talento como produz memes: em quantidade industrial.
Talvez demore porque continuamos tentando construir uma Seleção com celebridades que se encontram, em vez de jogadores que se pertencem.
No dia em que tivermos novamente onze homens dispostos a jogar como Ayrton Senna pilotava — sabendo que poderiam perder, mas recusando-se a colaborar com a derrota — talvez voltemos a disputar mais do que uma Copa.
Voltaremos a disputar o respeito.
Até lá, as BETs podem continuar patrocinando as placas ao redor do campo.
Porque, dentro dele, já apostamos demais.
Autor: João Roberto Giacomini, advogado e escritor


